Encontraram seu corpo estendido na calçada do prédio. Morava no oitavo andar, conhecia todo mundo, ninguém imaginaria que ela pudesse cometer um ato desses.
Luana era inteligente, pós-graduada. Tinha suas crenças convictas, argumentos mais ainda. Tinha um papo interessante, gostava de conversar e rir. Tinha amigos, situação financeira razoável e saúde perfeita.
Mas o fato é que ela não sabia viver. Se você levasse o papo mais a fundo, via suas fraquezas transparecerem na primeira oportunidade, e junto com elas um pedido de socorro. De fato, não era muito fácil cuidar da tia doente, nem ter ficado órfã tão cedo, de pai e mãe. Talvez por isso ela fosse tão carente de afeto, cobrasse tanto a atenção das pessoas. E quando se espera demais, o que se tem é sempre de menos.
Às vezes, Luana tinha surtos de otimismo, mas que nunca duravam muito. Seus relacionamentos acabavam sempre desastrosos, chegou uma hora em que os amigos não conseguiam mais animá-la. Ela tinha medo de ficar só, e isso só afastava mais as pessoas. Quem tem medo de ficar só é porque não suporta a própria companhia.
Agora, olhando para o próprio corpo inerte no chão, ela reparava pela primeira vez em muito tempo em como o céu estava azul, e se lembrava que há anos não ia à praia. Agora não tinha mais essa chance, a única cor que ia pegar era um roxo azulado.
Viu em meio aos rostos estupefatos e chocados algumas faces conhecidas, sem acreditar no que viam. Correria, sirene de ambulância, choro, tumulto, gritos abafados, o caos se instalou por uns minutos naquela rua. O caos mental se instalou nela quando entendeu que fora ela quem provocara aquilo, se lembrou que finalmente tinha tomado coragem de fazer o que passou incontáveis noites planejando. Tinha pensado em lâminas, veneno e na janela do quarto, que lhe pareceu mais rápido e indolor.
Luana acreditava, como todo suicida, que pôr um ponto final na existência seria o fim dos seus problemas, o descanso para um ser tão exausto do castigo de viver. E agora estava lá, mais que resistente, existente. Não fora acometida de nenhum sono eterno nem retornou ao pó, como sua bíblia lhe ensinara. Estava lá ainda, mas ninguém a via, ouvia nem entendia direito o que tinha acontecido. Ela teve uma visão pior que a de seu mundo acabando, a de seu mundo intacto.
Um “não!” sonoro ecoou no meio da noite, ela já sentada na cama, abriu os olhos hesitante. Suava como quem corre da morte. Esfregou os olhos e respirou sentindo como nunca antes o ar entrando e saindo de seus pulmões, era bom o gosto da própria saliva. Agradeceu a Deus por ter sido só um pesadelo e, como uma resposta automática, uma chuva fina começou a cair na janela. Por impulso, ela colocou a cabeça pra fora e sentiu cada gota dizendo “você está viva”, enquanto escorria livre. E num clarão ela enxergou quem era o culpado pela tragédia de sua vida, e o exorcizou de uma vez só. Libertou-se de si mesma, o único fantasma que a assombrava.